A cultura é a identidade de um povo.

Os quebradores de pedras do bairro Alto do Urubu em Serra Talhada – PE.

MINHAS LEMBRANÇAS DOS QUEBRADORES DE PEDRAS DO BAIRRO ALTO DO URUBU 🪨🔨

 

Uma memória da infância sobre o trabalho, a resistência e a formação do bairro da Conceição, em Serra Talhada – PE.

 

Quando eu tinha aproximadamente 13 anos de idade, estudava na Escola Manoel Pereira Lins. Naquela época, o bairro da Conceição ainda era conhecido por muitos moradores como Alto do Urubu.

 

Guardo na memória uma cena que, mesmo depois de tantos anos, permanece viva: homens e mulheres trabalhando naqueles lajedos, sentados no chão, sob o forte sol do Sertão, com uma marreta nas mãos e uma tira de borracha de pneu sobre o colo.

 

Era assim que muitas pessoas produziam a brita utilizada nas construções daquele período.

 

Os lajedos ficavam aproximadamente na área onde hoje está localizado o Posto Sagrada Família. Naquele tempo, aquele pedaço da cidade tinha uma paisagem bastante diferente da que conhecemos atualmente.

 

A brita feita na marreta

 

Lembro-me de como o trabalho era realizado.

 

A pedra era colocada dentro de uma espécie de proteção feita com borracha de pneu. O objetivo era evitar que os estilhaços se espalhassem durante as pancadas da marreta.

 

Então começava o trabalho:

 

Batia, quebrava, separava e repetia.

 

Pedra após pedra, o grande lajedo ia sendo transformado em pequenos fragmentos que seriam utilizados como brita nas construções.

 

Como costumava dizer na minha lembrança:

 

«“Meu jovem, naquela época a brita era artesanal.”»

 

Cada lata cheia tinha seu valor e, segundo a memória daquele período, podia render cerca de 10 contos de réis.

 

Mais do que uma atividade de trabalho, quebrar pedra era uma forma de muitas famílias garantirem o sustento de suas casas.

 

Trabalho duro debaixo do sol

 

Era um serviço pesado.

 

O sol forte do Sertão, a marreta, a pedra e o esforço físico faziam parte da rotina daqueles trabalhadores. Homens e mulheres enfrentavam o calor, o cansaço e os calos nas mãos para conseguir levar o sustento para suas famílias.

 

Hoje, quando passamos por ruas, casas e construções daquela região, talvez seja difícil imaginar que, em determinado momento de sua história, parte daquele material utilizado para construir a cidade tenha sido produzida de maneira tão artesanal.

 

Mas a cidade não nasceu pronta.

 

Antes do asfalto, das casas e das transformações urbanas, existiram pessoas trabalhando, carregando materiais, construindo paredes e abrindo caminhos.

 

Uma lembrança que merece ser preservada

 

Esta lembrança não pretende dizer que o passado era melhor do que a modernidade de hoje.

 

Não é essa a intenção.

 

O objetivo é reconhecer a história das pessoas que viveram aquele período e contribuíram, com seu trabalho, para a transformação da cidade.

 

Cada rua construída, cada casa levantada e cada parede erguida também representa um pouco do esforço de gerações que enfrentaram condições muito diferentes das atuais.

 

Aquela brita produzida na marreta talvez pareça apenas um detalhe diante da Serra Talhada de hoje.

 

Mas, para quem viveu aquela época, ela representa muito mais.

 

Representa trabalho, necessidade, resistência, dignidade e memória.

 

Por isso, quando recordo os quebradores de pedra do antigo Alto do Urubu, não vejo apenas homens e mulheres sentados ao redor dos lajedos.

 

Vejo trabalhadores que fizeram parte da história de uma comunidade.

 

O bairro da Conceição não nasceu pronto.

 

Ele também foi construído com pedra, suor, marreta e muita determinação.

 

E preservar essas lembranças é uma maneira de fazer com que as novas gerações conheçam não apenas a cidade que existe hoje, mas também um pouco do caminho percorrido por aqueles que vieram antes.

 

Porque uma cidade também é feita das histórias de quem trabalhou para construí-la.

 

Cartório Cultural de Serra Talhada – PE

Resgate e registro da memória da nossa querida Serra Talhada.

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